Inovação e Sustentabilidade - Projeto de Saneamento Rural no Cooperativismo

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Em Toledo - PR, o projeto da rede coletora na Microrregião do Rocio é uma demonstração da inovação no saneamento rural integrada a uma planta de produção de biogás.

Inovação e Sustentabilidade - Projeto de Saneamento Rural no Cooperativismo
Foto: Microrregião do Rocio, em Toledo - PR. Divulgação/ Ambicoop
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Entrevista
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Inovação e Sustentabilidade

Projeto de Saneamento Rural no Cooperativismo.

Por Heleno Quevedo - Nos últimos anos, a agricultura e a pecuária têm passado por uma revolução silenciosa no Brasil, impulsionada por uma necessidade crescente de sustentabilidade e pela busca de soluções ambientais e econômicas eficazes. Nesse cenário, um projeto de saneamento rural dedicado à produção de biogás e outros produtos e serviços obtidos de sistenas anaeróbios, ancorado no cooperativismo, destaca-se como um modelo verdadeiramente inovador em Toledo no Estado do Paraná, que promete trazer mudanças transformadoras para o campo.

O cerne deste projeto inovador é a integração de tecnologias avançadas e a colaboração entre produtores rurais, moldando uma abordagem cooperativa. A rede de coleta desempenha um papel crucial nessa empreitada. A infraestrutura de coleta, composta por uma intrincada malha de tubos, dutos, canos e uma adutora central, tem a missão de conectar as propriedades rurais e direcionar os dejetos da pecuária intensiva de maneira eficiente até uma planta de biogás de alto desempenho. Esta rede é uma demonstração da inovação no saneamento rural, pois reúne elementos de engenharia avançada para resolver um problema de longa data.

A rede de coleta que está conectando produtores da Microregião do ROCIO serve como a espinha dorsal do projeto, conectando fazendas dispersas e canalizando os resíduos orgânicos para um propósito mais nobre. O projeto do sistema é equipado com sensores inteligentes que monitoram o fluxo e a qualidade dos dejetos, garantindo que o processo de biodigestão seja eficiente e ambientalmente responsável. Esta infraestrutura não apenas resolve o problema da poluição ambiental, mas também se traduz em diversas oportunidades de geração de receitas.

Foto: O saneamento rural é uma inovação que potencializa o setor de agropecuária. Divulgação/ Ambicoop

O coração do projeto é a planta de produção de biogás, onde a magia acontece. Utilizando tecnologias de ponta, os dejetos são transformados em biogás, um recurso valioso que pode ser usado para geração de energia elétrica ou combustível, reduzindo os custos operacionais das propriedades rurais dos cooperados. Além disso, o processo resulta na produção de dióxido de carbono (CO2), amônia (NH3),  hidrogênio (H2) e principalmente metano (CH4), substâncias que, devidamente tratadas e direcionadas para os mercados adequados, se traduzem em receitas adicionais aos produtores cooperados.

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O digestato, subproduto da digestão anaeróbia, é um valioso recurso para a produção de biofertilizante organomineral, que pode ser comercializado para agricultores locais. A recuperação de nutrientes NPK do digestato não apenas resolve a questão dos dejetos, mas também melhora a qualidade do solo e aumenta a produtividade agrícola. Além disso, a água de reuso gerada no processo pode ser usada para irrigação ou vendida a terceiros.

Para completar o ciclo, o projeto abre portas para a obtenção de certificados de ativos ambientais, como créditos de carbono, graças à redução de emissões de gases de efeito estufa (GEE). Esse ativo ambiental pode ser uma fonte adicional de receita, atraindo investidores que buscam soluções sustentáveis.

Neste cenário de inovação e sustentabilidade, o cooperativismo desempenha um papel fundamental. As cooperativas rurais reúnem produtores para compartilhar recursos, conhecimento e apoio mútuo. Isso torna o projeto de saneamento rural ainda mais forte, permitindo que pequenos produtores tenham acesso a tecnologias avançadas, recursos financeiros e oportunidades de mercado que, de outra forma, seriam inacessíveis.

Em Toledo - PR, esse projeto inovador está sendo desenvolvido pela cooperativa AMBICOOP, constituída a partir da assembleia geral ordinária realizada no dia 13 de abril de 2021, com o propósito de estruturar uma solução coletiva para o problema dos dejetos (substratos orgânicos) existentes nas unidades de produção agropecuária e nas pequenas agroindústrias instaladas Microrregião do Rocio.

Foto: Reuniões dos Cooperados da AMBICOOP na Comunidade do ROCIO, em Toledo – PR. Divulgação/ Ambicoop.

Em resumo, o projeto de saneamento rural da AMBICOOP para produção de biogás e outros produtos e serviços, dentro do cooperativismo, é uma inovação que transforma a agricultura e a pecuária, atendendo às demandas de sustentabilidade e ao mesmo tempo gerando receitas que fortalecem as comunidades rurais. É uma demonstração de como a colaboração, a tecnologia e a visão sustentável podem convergir para criar soluções poderosas no campo brasileiro.

Para conhecermos melhor o projeto de saneamento rural da AMBICOOP, o Portal Energia e Biogás conversou com o senhor Ilmo Werle Welter - Presidente do Conselho de Administração da AMBICOOP e como Neudi Mosconi - sócio administrador da Me Le Brasil Biogás, empresa parceira da AMBICOOP no desenvolvimento do Projeto Piloto da Usina de Biogás.

Nessa primeira parte da entrevista vamos destacar um bate-papo com Neudi Mosconi, sócio administrador da Me Le Brasil Biogás. Uma conversa sobre as tecnologias, os benefícos, os desafios e as oportunidades enfrentadas no Projeto da AMBICOOP.

Foto: Usina de Biogás. Divulgação/ Me Le Brasil Biogás..

   

Entrevista com Neudi Mosconi - sócio administrador da Me Le Brasil Biogás.

1. Portal Energia e Biogás: Quais tecnologias específicas serão implementadas no projeto de saneamento rural da AMBICOOP e como elas funcionam?

Neudi Mosconi: As tecnologias serão as mesmas de uma planta de alta eficiência de biodigestão existente na Alemanha. A central será toda ela automatizada, terá rede coletora conectada a mais de 48 granjas de produção de suínos e gado leiteiro para o transporte da fração líquida destas biomassas residuais. Teremos um conceito pleno de economia circular, 100% das biomassas serão recicladas.

Após o processo de biodigestão, o digestato será tratado retirando dele toda a fração orgânica que será prensada para retirar parte da umidade e em seguida irá para o processo de compostagem sendo antes adicionado a este lodo material estruturante,  como poda de árvore, corte de grama da cidade, varrição de rua, resíduos de madeira reciclados do processo de construção civil entre outros, após o processo de compostagem o material será peneirado, recebendo outros produtos como calcário, gesso e será industrializado para produção do adubo orgânico granulado, com uso como fertilizante no cultivo de soja e milho, principais culturas da região.

A parte líquida irá para fertirrigação para produção de biomassa que será colhida e após processo de silagem será adicionada aos biodigestores para produção de biogás. O Biogás 2/3 nesta primeira etapa que perdurará 3 anos, será utilizada na cogeração e o excedente será purificado produzindo biometano gasoso para uso industrial, uso nos caminhões e veículos dos cooperados e do programa e o CO2 será comercializado em frigoríficos regionais no atordoamento do abate de suínos. 

2. Portal Energia e Biogás: Como a empresa MeLe Brasil Biogás garante a eficiência e a confiabilidade da infraestrutura de coleta e processamento de dejetos?

Neudi Mosconi: Indicando os melhores equipamentos, as mais eficientes tecnologias, aplicando automação em todo o processo e coordenando a gestão operacional de todo o sistema. 

3. Portal Energia e Biogás: Quais benefícios econômicos e ambientais as tecnologias utilizadas no projeto oferecem?

Neudi Mosconi: Todo o sistema por ser robusto, pela quantidade de biomassa envolvida bem como sua diversificação, é um projeto que tem viabilidade econômica e financeira de menos de 8 anos de playback, não proporcionará nem um tipo de passivo ambiental em todo o seu processo pois até o escapamento do motor será direcionado as leiras de compostagem que funcionarão como biofiltro para os resíduos do escapamento evitando desta forma a liberação do CO2 quando da queima do biogás. 

4. Portal Energia e Biogás: Qual é o suporte técnico contínuo fornecido aos clientes após a implantação do projeto?

Neudi Mosconi: Operação por 5 anos de forma permanente no mínimo com um técnico diariamente na central, monitoramento remoto de todo o processo e automação, além de treinamento dos operadores e transferência de know-how de gestão operacional.

5. Portal Energia e Biogás: Como a empresa MeLe lida com questões de conformidade regulatória e regulamentações ambientais relacionadas ao saneamento rural?

Neudi Mosconi: Estamos diretamente envolvidos no aprimoramento das normas sugerindo as mudanças necessárias, o controle precisa ser rigoroso e as normas alemães podem ser também em boa parte serem aplicadas aqui. Saneamento rural ou se faz em todas as suas etapas, não pode haver geração de passivos no processo.

Não dá para conceber que em pleno século 21 tenhamos grandes centrais recolhendo resíduos de biomassa com caminhões movidos a combustíveis fosseis, e fazendo apenas uma parte do processo ou seja somente produzindo biogás, é preciso ir além pois na nossa região o limitador de crescimento da cadeia de produção de proteína animal é o dejeto remanescente, biometano gerado da fermentação das lagoas de dejetos é uma parte do problema, mas há vários outros que precisam do mesmo empenho.

6. Portal Energia e Biogás: Existe alguma estratégia de reciclagem ou reutilização de produtos resultantes do saneamento, como o digestato e os gases?

Neudi Mosconi: I) Biogás em pequenas quantidades solução é a cogeração, com quantidades maiores precisa haver tratamento e produção de biometano, mas não podemos liberar o CO2 para a atmosfera novamente. O CO2 tem um valor de mercado de 1.500,00 reais a tonelada, em cada metro cúbico de biogás temos em média 700 gramas de CO2. Biogás acima de um volume de 15.000 metros cúbicos por hora já viabiliza uma planta de biometanol.

II) Matéria orgânica do digestato com volumes acima de 1.000 metros cúbicos de dejeto podemos tranquilamente implementar uma planta de compostagem e uma unidade de adubo orgânico, com bom retorno financeiro.

III) Digestato sem carga orgânica ainda é um biofertilizante ótimo para produção de feno ou biomassa para produção de silagem. Não se pode desperdiçar um produto que terá com certeza mais de um a dois pontos de cada elemento do NPK.

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7. Portal Energia e Biogás: De que forma a empresa MeLe se envolve em projetos de responsabilidade social e sustentabilidade relacionados ao saneamento rural?

Neudi Mosconi: Bem estamos a mais de 5 anos desenvolvendo no Brasil em parceria com o Governo do Estado, Governos Municipais e produtores apoiados por agencias de cooperação internacional o mais audacioso e talvez seja o primeiro grande programa de saneamento rural do mundo em fase avançado de desenvolvimento e já com início da sua primeira central de gestão, tratamento e transformação das biomassas residuais num conceito pleno de economia circular e alicerçado no tripé da sustentabilidade onde o econômico está em terceiro e onde o modelo de negócio traz ganhos a todos os atores envolvidos pela gestão cooperativa do programa. 

8. Portal Energia e Biogás: Que desafios e oportunidades a MeLe enfrenta para expansão e replicação do projeto da AMBICOOP em outras regiões ou países?

Neudi Mosconi:  Ao implementarmos em sua plenitude toda a infraestrutura prevista no programa macro que compreenderá o saneamento nos 18 municípios da região Oeste do Paraná servirá como case de fácil entendimento e reprodução para outros territórios, permitindo que se molde facilmente a realidade de cada território.

Em breve, a 2ª parte com a entrevista do Sr. Ilmo Werle Welter - Presidente do Conselho de Administração da AMBICOOP.

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